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Quero o meu corpo de volta!

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Quero o meu corpo de volta!

Mensagem  Convidado em Seg Maio 19, 2008 8:10 pm

Preocupar-se com a forma física, com o peso e com uma dieta saudável é normal depois do parto. Fazer dessa preocupação o centro da existência é sinal de que alguma coisa não está bem.

Quase todos os dias aparecem na imprensa cor-de-rosa as figuras públicas que acabaram de ser mães - sejam elas actrizes, modelos ou só famosas «porque sim». À fotografia desfocada, tirada à socapa, à saída da maternidade, segue-se, passado pouco tempo, o mínimo possível, a fotografia que marca o regresso à vida pública e mostra, invariavelmente, uma fantástica forma física e uma silhueta invejável. Numa sociedade onde o ideal de beleza passa pela magreza extrema, esperar seis meses a um ano para voltar a ser o que se era antes de engravidar (período considerado necessário pelos especialistas) parece uma eternidade para um número crescente de mães. Toda a gente pergunta quantos quilos se ganhou, quantos quilos já se perdeu, toda a gente lê revistas e vê as fotografias dos anúncios. E a frustração aumenta quando se têm como modelos as tais estrelas de cinema que conseguem ostentar aquele «corpinho» duas ou três semanas após o parto.

Acontece que, na vida real, é impossível recuperar num abrir e fechar de olhos - partindo do princípio de que é irreal para quase toda a gente passar todos os dias horas a fio num ginásio, pagar tratamentos sofisticados em centros de estética e o acompanhamento de um nutricionista ou fazer cirurgias plásticas para pôr rapidamente «tudo no sítio».
É normal e saudável que uma mulher se preocupe com a sua aparência, com a sua forma física, com a sua dieta. É normal que sinta alguma frustração por não conseguir vestir o número que vestia antes. Não é normal nem saudável que, depois de o bebé nascer (ou em qualquer altura da vida) faça dessa preocupação o centro da sua existência e que os sentimentos negativos em relação ao seu corpo se tornem a única coisa capaz de sentir. Entrar em dietas loucas, vomitar a seguir às refeições, passar horas no ginásio, chorar descontroladamente, perder o sono, isolar-se, não querer sair de casa são alguns dos sinais que podem alertar quem está mais próximo para um problema grave. Escusado será dizer que todas as relações - com o marido, com o bebé, com outros filhos - sairão afectadas por este mal-estar psicológico. Dar a volta ao problema é quase sempre possível e inquestionavelmente urgente.
Em Portugal não há números que retratem esta realidade, nem se sabe quantas mães desenvolvem distúrbios alimentares no pós-parto, mas segundo um inquérito divulgado recentemente na Grã-Bretanha, a maior parte das mães está descontente com o seu corpo no período pós-parto.

Quando a frustração se torna patológica
A pressão social e cultural a que o culto da magreza dá origem já é bem conhecida das mulheres muito antes da gravidez, mas as alterações que o «estado de graça» implica tornam este um período crítico que pode fazer surgir problemas latentes. Não é isso que, só por si, desencadeia um distúrbio psicológico, mas é um factor que ajuda a agravar problemas.
Na opinião de Rute Agulhas, psicóloga clínica e terapeuta familiar com experiência na área da gravidez e maternidade, «a obsessão com a perda de peso e com a forma física no pós-parto não surge do nada. O mais frequente é que essa preocupação, esse mal-estar já venha de trás. Às vezes começou com as mudanças da adolescência mas ficou mais ou menos adormecido e, muitas vezes, manifesta-se ainda durante a gravidez e não só no pós-parto. A mulher não consegue aceitar as modificações que o seu corpo está a ter, sente-se menos desejável, convive mal com as alterações na rotina e entra em situações de ansiedade e estados depressivos».
Rute Agulhas já acompanhou vários casos, com maior ou menor gravidade, de mulheres que entraram neste processo.Explica que há problemas estruturais de auto-estima: «Olham-se ao espelho e vêem-se muito mais gordas do que estão. O obstetra até pode considerar que o aumento de peso está dentro da normalidade, mas estas mulheres têm formas de pensamento distorcidas, catastrofizam a realidade, pensam em termos de tudo ou nada - ou sou muito desejável ou não sou nada - e só vêem os aspectos negativos da maternidade.»
Pode dizer-se que a preocupação com o peso, com o corpo, se torna patológica a partir do momento em começa a absorver a maior parte do tempo, energia e atenção da mãe. «Se a mãe só se preocupa em perder mais um quilo, a cada dia que passa, em não comer isto ou aquilo, se passa mais tempo no ginásio do que com o bebé, se estas preocupações absorvem a maior parte do seu investimento e vive em função da perda de peso, então alguma coisa não está bem», afirma Filipa Caetano, psicóloga clínica.

O grande passo
Nestes casos, «o grande passo é admitir que se tem um problema que é difícil, ou impossível, resolver sozinha», considera. «Para se poder avançar para um processo terapêutico que possa ajudar esta mãe, é preciso que ela tome consciência do problema, é preciso que pare e consiga analisar o que está a passar-se consigo.»
É possível fazer este processo sozinha, mas não é fácil. «Há pessoas que se apercebem que estão tão diferentes do que eram que acabam por reconhecer que se passa algo errado. Mas nem toda a gente tem esta auto-crítica. Muitas vezes é através de amigos, do marido ou de familiares que acabam por ser confrontadas com a questão e com a necessidade de procurar uma ajuda especializada», explica a psicóloga.

A terapia
Rute Agulhas já seguiu alguns casos, de maior ou menor gravidade, de pessoas que na altura da gravidez ou no período pós-parto ficaram de mal com o seu corpo. Uma delas foi seguida desde os sete meses de gravidez e procurou ajuda porque a relação com o marido estava a chegar a um ponto insustentável: «Sentia-se gordíssima, não queria o bebé, dizia que quando ele nascesse se calhar não ia querer olhar para ele, culpava o marido pelo seu estado e, claro, o bebé». Seguiram-se dois meses de intervenção intensiva, «era uma corrida contra o tempo», lembra Rute Agulhas. Esta mãe nem sequer conseguia ir às consultas de rotina, nem podia imaginar o dia do parto. As sessões de terapia incluíram idas ao hospital, com aproximações graduais à sala de parto, contacto com os profissionais de saúde, «houve uma ponte com a psicóloga do hospital, que foi muito importante», recorda. No fim, «no momento em que viu pela primeira vez o bebé conseguiu sentir coisas positivas e, gradualmente, foi ultrapassando o problema.»
Num processo terapêutico deste tipo, é comum envolver os outros membros da família, pois a ideia é que a mãe deixe de estar focada em si mesma e passe a investir nas relações com aqueles que são para ela importantes. «Não podemos limitar-nos a trabalhar a mulher isolada, temos de envolvê-la na relação com os outros», adianta Rute Agulhas.
A boa notícia é que o saldo destas intervenções é quase sempre positivo. «Sem intervenção, o prognóstico é reservado, mas se houver uma intervenção (quanto mais precoce melhor, se possível ainda durante a gravidez), a mulher poderá recuperar completamente», afirma a psicóloga. Escusado será dizer que a saúde do bebé também está em causa pois ela também depende da relação com a mãe. Também por ele, vale a pena procurar ajuda.


(Publicado no site IOL Mãe)

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