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Aborto

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Aborto

Mensagem  Convidado em Qua Abr 16, 2008 9:29 pm

Olá a todos/as

Abaixo encontra-se um artigo que escrevi no seguimento de uma entrevista que me foi realizada. Gostava de saber a vossa opinião. Poderão também ter acesso a ele no meu blogue: http://anasousapsicologa.blogspot.com

Beijinhos

--------------


O termo aborto tem sua origem etimológica no latim abortus,
que significa privação do nascimento, sendo um fenómeno de abrangência
social, que, por vezes, não é conhecido de forma conveniente, o que
impede uma compreensão profunda da questão, dificultando a abordagem do
mesmo, não só por técnicos de saúde, mas também pela rede de apoio
familiar e social.




Aborto Espontâneo - Efeitos
Em
primeiro lugar, gostaria de estender esta questão não só à mulher – mãe
– como também ao seu companheiro – pai -, uma vez que, na generalidade,
a gravidez é algo planeado por ambos, pelo casal. A gravidez é um
momento com a duração de, sensivelmente, 40 semanas, durante o qual
ocorrem inúmeras mudanças não só físicas mas essencialmente emocionais
e de papéis, não só da mulher como do seu companheiro e rede de suporte
familiar. É inevitavelmente criado um vínculo a este bebé, a esta vida
que vai crescendo de dia para dia; no entanto, em alguns casos a
felicidade é suplantada pela angústia, pela incerteza e até pela perda:
são os casos de gravidezes de risco que podem culminar no tão temido
aborto espontâneo. Cria-se então uma situação que não fazia parte dos
planos do casal, sendo uma experiência extremamente traumatizante para
ambos, embora expressa de maneira distinta por cada um dos elementos do
casal. A mulher sente-se frequentemente vazia, assolada por uma
angústia e incerteza muito fortes, um sentimento de incapacidade de
gerar vida, uma espécie de “machadada” no seu “ego feminino”. Estas
mulheres sentem geralmente tristeza, frustração, raiva e
desapontamento, culpando-se frequentemente pelo sucedido.
As mulheres que sofreram aborto espontâneo
são consideradas um grupo de risco, nomeadamente se não houver uma
conveniente elaboração do luto, uma perpetuação do sofrimento no tempo,
podendo desencadear sintomatologia psicopatológica, nomeadamente,
ansiedade e depressão. No entanto, é importante referir que a maioria
das mulheres consegue ultrapassar a perda, sem desencadear perturbações
psicológicas.

Aborto Provocado - Efeitos


O
aborto induzido ou interrupção voluntária da gravidez (IVG) pode ter
diversas motivações ou causas, sendo que, na minha opinião, as mais
importantes são: a protecção da vida da mulher (por exemplo, em casos
de malformação congénita do feto) e a
indesejabilidade da gravidez. Uma gravidez indesejada pode ser fruto de
vários factores, tais como a violência doméstica, pressões familiares,
sociais e laborais, podendo induzir alterações psicológicas,
nomeadamente, depressão, ansiedade exagerada, baixa auto-estima e até,
em casos extremos, ideação suicida.
No
que diz respeito às reacções à perda por aborto provocado, existem
mulheres que após a IVG se sentem aliviadas e com maior sensação de
bem-estar, o que para a maioria das pessoas poderá soar paradoxal. No
entanto, outras existem que experimentam sensações de grande sofrimento
e angústia, tanto maiores quanto mais avançado fôr o tempo gestacional.
Pode haver o desencadeamento de um Síndrome Pós-Aborto,
caracterizado, entre outros factores, por comportamentos de negação,
evitamento, depressão, pesadelos, ansiedade, insónias e até disfunção
sexual ou mesmo suicídio, em casos extremos.


Há diferenças entre homens e mulheres no que diz respeito à forma como a perda é encarada?
Tal
como referi anteriormente, uma situação de perda gestacional é encarada
de forma distinta pela mulher e pelo seu companheiro; há um processo de
luto no qual ocorre um forte sofrimento emocional, implicativo de um
trabalho de reajustamento psicológico, tanto individual como familiar.
O aborto é, sem dúvida, uma situação indutora de grande stresse e
ansiedade, sendo que, nestas situações, as mulheres
expressam mais abertamente os seus sentimentos, procurando geralmente
apoio em familiares e amigos, ou visando até a criação de redes sociais
que as possam ajudar neste processo, num claro movimento de procura de
afiliação. Por seu turno, os homens
tendem a esconder mais o seu sofrimento, o que é em grande parte
explicado por factores sociais, uma vez que ainda vivemos numa cultura
em que os homens devem conferir protecção, devem ser cuidadores e não
“sofredores”. Ora, há assim uma maior tendência para a focalização no
trabalho, por exemplo, evitando falar ou até pensar sobre o assunto,
num claro movimento de fuga ao sofrimento. Mas isto não significa que
os homens não sofram, apenas sofrem de uma forma menos exteriorizada,
recorrendo em menor escala à rede de apoio social (amigos, familiares,
grupos de auto-ajuda, psicólogos, entre outros).
Esta
discrepância nas estratégias para encarar o sofrimento entre homens e
mulheres, podem trazer problemas ao casal, não sendo raras as trocas de
acusações e de culpabilizações pelo sucedido. O facto do companheiro se
mostrar distanciado, cria uma sensação de abandono na mulher, como se
estivesse sozinha naquele processo, como se fosse apenas ela a sofrer e
a sentir a perda, o que não é verdade. Por seu turno, o homem sente-se
inseguro e incapaz no sentido de se sentir frustrado na sua capacidade
de proteger a companheira, devido às manifestações claras de sofrimento
por parte da mesma. Ora esta é uma situação de crise no casal, que
deverá ser resolvida, sendo importante que ambos reconheçam o problema
que se está a gerar e procurem ajuda especializada nesse sentido.
Conheço
casos em que aparentemente se tinha resolvido a situação, mas foi
claramente uma ilusão. Mais tarde, voltou a acontecer uma situação de
perda gestacional e recomeçou todo o processo, culpabilizaram-se
mutuamente e a relação culminou em divórcio. No entanto, a maioria dos casais ultrapassa relativamente bem a perda.

Ana Sousa - Psicóloga Clínica

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Re: Aborto

Mensagem  Convidado em Qua Abr 23, 2008 3:19 am

Só li agora e achei o artigo muito interessante.

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