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Manifestações emocionais e comportamentais do abortamento

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Manifestações emocionais e comportamentais do abortamento

Mensagem  psic.artemis em Qua Dez 12, 2007 10:09 pm

Olá a todas

Após ver algumas dúvidas sobre o que é normal ou não sentirem após uma perda, resolvi colocar este texto que penso ajudar-vos a clarificar os sintomas que podem existir.

Reacções psicológicas
As reacções psicológicas a uma situação de abortamento são múltiplas e não estão relacionadas, linearmente, com o tempo de gestação. Dependem da motivação e desejo da gravidez, do investimento emocional nela depositado e na ligação com o bebé. No entanto, habitualmente, as perdas ocorridas no último trimestre têm maior impacto.
Apesar da variabilidade individual nas respostas emocionais, as mulheres que sofrem uma perda espontânea estão mais vulneráveis a apresentar tristeza, frustração, desapontamento, raiva (em relação às mulheres grávidas, aos médicos, aos maridos) e culpabilização (por acharem não ter tido os cuidados necessários).
São frequentes episódios depressivos em momentos significativos: na data prevista para o parto, em anos subsequentes na data do abortamento, numa próxima gravidez. Também são comuns as perturbações de ansiedade numa gestação subsequente.
Quando estas consequências emocionais se agravam ou perduram no tempo, não sendo resolvidas através dos recursos pessoais ou ainda, caso surjam abortamentos espontâneos repetidos, é necessária intervenção psicológica específica.

Quando estão razões estritamente médicas para a interrupção da gravidez, é possível perspectivar o sofrimento que o processo de decisão gera, sobretudo quando os movimentos fetais se fazem sentir e o nascimento do bebé é já perspectivado pelos pais, familiares e amigos.
Nas situações de IMG é possível que algumas mulheres experienciem arrependimento pelo acto cirúrgico, culpa pela morte do bebé e receio de não conseguir voltar a engravidar.

O Processo de Luto Normal
As perdas experienciadas pela mãe e pai, durante a gravidez ou puerpério geram respostas emocionais específicas, cuja natureza abarca várias manifestações.

Manifestações afectivas
Tristeza
Solidão
Culpa
Raiva
Ansiedade
Apatia
Choque
Desespero
Desamparo


Manifestações comportamentais

Agitação
Fadiga
Choro
Isolamento

Manifestações cognitivas
Pensamentos de preocupação com a criança
Sensação da presença da criança associada a alucinações visuais ou auditivas
Baixa auto-estima
Falta de memória
Dificuldades de concentração

Manifestações fisiológicas
Perda do apetite
Insónia
Queixas somáticas

As respostas emocionais mencionadas estão associadas ao trabalho de elaboração psicológica da perda, conhecido por Processo de luto. Este é um processo de adaptação à perda. É uma experiências profunda e dolorosa, que implica sofrimento, mas também a capacidade de encontrar alguma esperança, conforto e alternativas de vida significativas.
É importante referir que o período de dor e sofrimento correspondente ao luto por uma perda, é normal e deve ser encarado como saudável e necessário. É a sua ausência que merece mais atenção, pois isso pode indicar a presença de uma perturbação psicológica.





Processo de luto normal
As respostas típicas de um processo de luto organizam-se em quatro fases:
Fase de choque e negação: surge imediatamente após a perda e tem duração média de 1 a 14 dias. Habitualmente a pessoa não acredita no sucedido, sentindo-se perdida, só e apática. Estão presentes sintomas fisiológicos como a diminuição do apetite, insónias, náuseas e sensação geral de desconforto.

Fase do desespero e expressão da dor: é notória cerca de duas semanas após a perda. A descrença em relação ao sucedido desaparece, cedendo lugar à consciência da morte ocorrida. Os sintomas depressivos acentuam-se, havendo a ausência de interesse pelas actividades vitais e a alteração dos padrões normais de comportamento. São frequentes as pensamentos e sonhos sobre a pessoa perdida. Sentimentos como a raiva e a culpabilização quer para si, quer para os profissionais de saúde. Habitualmente esta fase tem a duração de 6 a 8 meses.


Fase de resolução e reorganização: caracteriza-se pela recuperação do interesse pela vida, pelo trabalho e pelas relações pessoais. O futuro deixa de aparecer com matrizes tão pessimistas, pois a perda começa a ser aceite, o que atenua os sintomas depressivos atrás evocados. A pessoa chora com menos frequência, os sentimentos de vazio e de tristeza são dissipados, assim como as recordações recorrentes do bebé. Esta fase pode durar semanas ou meses.

A recusa de certas mulheres em procurar apoio, deixando que os sintomas se agravem, pode levar à constituição de quadros clínicos de depressão e/ou a comportamentos aditivos como o consumo de bebidas alcoólicas e/ou medicação não prescrita, entre outros comportamentos de risco.
A recuperação de uma perda exige o activar de recursos pessoais e relacionais, que nem sempre estão disponíveis ou são os mais adequados ao trabalho de luto.
O percurso psicológico que culmina na aceitação da perda e restituição do equilíbrio emocional, é muito extenso, complexo, requer tempo, mas também, muita coragem e resistência.
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